O sofrimento do autor diante do editor


Loyola entrega os originais de seu novo romance à Global Editora

Liguei ao meu editor, Luiz Alves, com quem trabalho há quarenta anos na Global Editora: “Fique de olho no computador, estou te enviando meu novo romance”. Rápido, ele respondeu: “De modo algum, não recebo livro pelo computador. Traga aqui.” Achei curioso, mas por que não? Fiz uma cópia, coloquei debaixo do braço e toquei para o belo prédio da editora, que foi a residência de Ramos de Azevedo, o arquiteto de São Paulo. Luiz me esperava:

“Que história é essa de mandar pelo computador?”

“Para poupar seu tempo, a coisa chegar mais rápida.”

“E o que faço do meu tempo poupado? E o prazer de receber o original de suas mãos, cheirá-lo, olhar o sumário, os títulos dos capítulos, ler um pedaço, na companhia do autor? Esse é um ritual que está sumindo. Não fazem mais, porém gosto de certas coisas à antiga. Lembro-me que editores como José Olympio, ou Jorge Zahar e Ênio Silveira, tinham uma sala especial para receber os autores. Penso em ter aqui um espaço para o café, o chá, o uísque, ou cachaça, um bolo, para receber vocês. Quero olhar o escritor, ver a cara dele, sentir a angústia, a esperança, a sofreguidão.”

Luiz olhava o original de Enlouquecer calmamente, meu novo romance, saído do forno. Acariciava, lia um trecho, virava um monte de laudas, lia outro. “Não imagina que sinto a mesma coisa que você. Sinto o que cada autor sente. Pânico, euforia, dúvida. Vai ser sucesso, fracasso, vamos nos afundar, vamos nos consagrar? Perguntas a que ninguém responde, principalmente quando é um livro que saiu do fundo de você, não é produto de uma fórmula, um esquema. É literatura na qual acreditamos.”

Vieram os cafés, bolachas-d’água e sal e o sol vermelho do final de tarde entrou pelas imensas e históricas janelas. Senti então uma calma imensa, uma crença enorme, aquilo estava na sala, pela qual passaram tantos escritores, tantos escritos, tantos originais, personagens. Onde cada um de nós deixa coração. Somos inteiros aqui e nesse grosso volume que vai ter vida junto ao leitor ano que vem. E me veio o encontro com o editor Caio Graco, da Brasiliense, em 1965, quando levei o original de Depois do sol, meu primeiro livro. Depois da recusa de treze editoras, estava aterrorizado. O original sobre a mesa, Caio me passou uma xícara de café. Trêmulo, apanhei, virei a xícara, o café molhou os datiloscritos, como se chamavam. Vontade de morrer, pensei, acabou. Caio me olhou, riu, apanhou o original, secou com toalhas de papel, chamou a secretária: “Mande redatilografar o que se perdeu”. Olhou para mim. “Derramar café dá sorte, acho que vou publicar seu livro.” Doze dias depois me chamou para assinar contrato. Quarenta e quatro livros depois, a intranquilidade continua igual.

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