A dor de se despedir de um tormento


Quase todos os dias faço uma visita ao sebo Acervo, na Rua Artur de Azevedo, vizinhança de minha casa.  Sebos lembram a biblioteca de meu pai em Araraquara; me transportam para a Biblioteca Mario de Andrade, também de lá. Porque descubro aqui e ali livro que vi nessas duas bibliotecas pela última vez. Dou com livro que nunca mais vi em parte alguma, como Um Homem Acabado, de Giovanni Papini, que nunca mais reli. Ou Loira Dolicocefala e Cocaína, de Pitigrilli, cujos títulos nos anos 1950 me pareciam uma doideira, uma audácia. Desta vez, depois de encontrar A Luta, de Norman Mailer, cujo nome voltou à tona com a morte de Muhammad Ali, ou Cassius Clay, na qual Mailer se exibe mais do que o lutador, dei com um volume fininho, chamado Absolutamente nada, de Robert Walser, capa com O Quarto de Arles de Van Gogh, publicado pela Editora 34. Quando é da 34, compro, sei que vem coisa boa. Um livrinho novo de um velho autor, o suíço Robert Walser.  Ele nasceu em 1878 e morreu em 1956, com 78 anos. Walser foi um flaneur, andava pelas florestas, caminhava por Berlim, esteve internado em sanatórios e escrevia compulsivamente. Homem livre, livre. Era, no entanto, um desajustado para os padrões de normalidade. Famoso pelos textos breves. Acho que vou comprar e te enviar pela normalidade da sociedade. Deslocado, outsider, marginal, escrevia esplendidamente. Morreu num dia de Natal, foi encontrado morto por alguns estudantes caído na neve dentro de uma floresta. Considerado um dos grandes miniaturistas da literatura. Para se ler lentamente. Deixo para vocês uma frase dele: “É grande a dor de se despedir de um tormento”, do conto Viagem de balão.

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