Entrevista para a revista Discutindo Literatura


Entrevista para a revista Discutindo Literatura

Respostas dadas no dia 22 de fevereiro de 2008 às 13h40

 

Parte 1

Qual o momento na sua infância ou adolescência que você identifica como a descoberta da literatura? Foi algum livro em especial? Algum autor?

Há alguns momentos, não um. O primeiro foi quando meu pai me deu uma versão para crianças de Robinson Crusoé. Fiquei fascinado e aterrorizado. A solidão de Robinson era apavorante. Um momento crucial, naquela noite não dormi: quando Robinson descobre a pegada de Sexta-feira. Li e reli dezenas de vezes. Ao longo da vida comprei diferentes edições, até hoje adoro esse livro. Quando contei ao meu pai sobre Robinson, ele comentou: “quando alguém sabe contar uma história comove os outros. Contar histórias é das coisas mais belas que tem.” Outro livro que me pegou: Simbad, o Marujo. Aquele viajante era um deslumbre, queria viajar também. Minhas professoras do primário (primeiro grau) Lourdes Prada, Ruth Segnini, Daysi Albertini Padula e Noemy de Oliveira já nos anos 1940 diziam: “viaje com os livros, com a cabeça.” Não se formam mais professores assim. Outro que me pegou: Pinóquio. Agora, quando li As Caçadas de Pedrinho foi pura magia. Eu me tornei Pedrinho e caçava pelos quintais de Araraquara. Devorei Lobato inteiro. Felizmente estão reeditando e já comecei a comprar para meus netos Pedro, Lucas e Felipe (este tem um mês apenas). Tive uma prima, a Maria do Carmo Mendonça, que possuía um tesouro, a Biblioteca Infantil da editora Melhoramentos. Era quase uma centena de livros de pequeno formato com uma capa única, a avó contando histórias para os netos. Pois essa prima me emprestou todos. Emprestava um, quando eu devolvia, emprestava o outro, tinha o maior ciúme dos livros, com ela aprendi a ter e a cuidar. Como esquecer O Patinho Feio, A Gata Borralheira, O Gato de Botas, O Cisne Negro? Essa prima aparece numa breve cena em meu romance Zero, é aquela mulher de bunda branca que o personagem vê a caminho do banheiro já levantando o vestido, uma cena que presenciei aos nove anos e tenho até hoje na cabeça. Fundamental igualmente foi uma família vizinha a de casa, em Araraquara, a Malkomes, que possuía O Tesouro da Juventude, maravilha das maravilhas, até meu pai via com a gente, levávamos um mês para devorar um volume.

 

Você trocava palavras por bolinhas de gude e figurinhas quando criança. Como é essa história? Você se lembra da palavra que você mais gostou de trocar?

Meu pai tinha uma enciclopédia, a Jackson. Acho que era a única editada naquele tempo. Feita no começo do século, mas maravilhosa. Herdei dele (meu pai morreu em 1993). Há alguns anos, ela foi mostrada no Sesc de Araraquara, quando minha cidade me fez uma espécie de homenagem pelo meio século de minha saída de lá. Fui embora em março de 1957. A enciclopédia com suas ilustrações e suas palavras estranhas preenchia o tédio das noites ou dos dias de chuva e frio. Não me lembro da palavra que mais gostava de trocar, afinal se passaram mais de 60 anos, mas algumas ficaram, como crocidura, epitélio, catáfora, catapulta. Essa história está em meu livro O Menino Que Vendia Palavras, editado pela Objetiva, que em dezembro do ano passado ganhou da Fundação Biblioteca Nacional o Prêmio Melhor Livro Infantil do Ano. Falando nisso, no carnaval deste ano, em Araraquara, a Escola de Samba Unidos do Selmi Dei, da periferia, muito simples, muito humilde, mas inventiva, teve como tema esse livro, até desfilei no carro abre-alas, batucando numa máquina de escrever. Considero uma glória que não é para qualquer escritor, aproximar-se assim do povo.

 

Seu primeiro texto é uma crítica de cinema num jornal de Araraquara e você chegou a trabalhar fazendo pontas em filmes como “O Pagador de Promessas”, do Anselmo Duarte, e em roteiros, como o de seu primeiro romance (“Bebel que a cidade comeu”). Seria verdade falar que o cinema te influenciou mais do que a literatura na sua escrita?

O cinema foi fundamental. Na juventude, entre os 14 e os 20 anos, vi cinema todas as noites da semana, via o mesmo filme duas, três vezes, afinal, nos anos 1950 não existia divertimento na cidade. De noite era bar ou footing. Este, para valer, apenas no sábado e domingo. Eu mergulhava nos cines Odeon e Paratodos, na escuridão, mergulhava na tela, vivia aqueles personagens todos. Eu era o Chopin de A Noite Sonhamos, Tyrone Power em Mergulho no Inferno e Sangue e Areia, Bogart em Casablanca. Filmes memoráveis: O Menino dos Cabelos Verdes, Vendaval de Paixões, Canção de Bernardete, Gilda, O Riso da Morte, Pânico nas Ruas, A Paixão dos Fortes, Yolanda e o Ladrão, O Ladrão de Bagdá, Folias de Ziegfeld, Amar Foi Minha Ruína, …E o Vento Levou, O Manto Sagrado. Os filmes franceses com Martine Carol, os filmes de Jacques Becker (ah, a belíssima Anouk Aimé como a mulher de Modigliani em Os Amantes de Montparnasse). E o Belles de Nuit, de René Clair. O Salário do medo. E Os Visitantes da Noite, Boulevard do Crime, Quai des Brumes, Escravas do Amor (onde Françoise Arnoul aparecia nua, nua, merecendo homenagens solitárias no próprio balcão do cinema), e os dramalhões mexicanos com Ninon Sevilla, Maria Antonieta Pons,  Ameche Barba, os seriados como A Máscara de Fu-Manchu, A Marca do Zorro, Charlie Chan, Jim das Selvas, Dick Tracy, O Homem Invisível, O Fantasma. Como esquecer o impacto que Silvana Mangano provocou em Arroz Amargo? Aquelas coxas mergulhadas no lama do arrozal eram o que de mais erótico tínhamos visto no cinema até então. Imagens, imagens, imagens. Quis primeiro fazer cinema, ser roteirista, diretor, vir trabalhar na Vera Cruz, a nossa Hollywood. E a paixão que tive por Eliane Lage? Com os seriados aprendi a segurar o leitor de capítulo para capítulo; um final com um gancho, para que o leitor continuasse a ler. Todos os meus livros e contos nasceram de uma imagem, assim como as crônicas hoje. Cresci e evolui por meio de imagens. Escrevo como se fosse um roteiro. Quanto às pontas em filmes, eram um divertimento, o meu passaporte para o futuro. Quando olho para O Pagador de Promessas, vejo o Ignácio com 25 anos, imagem que nunca mais terei.

 

Parte 2

Diz-se que você viu mais de oitenta vezes o Oito e Meio, de Fellini, e mais de cem vezes a peça “Os Pequenos Burgueses”, que o José Celso Martinez Correa encenou na década de 1960. Como essas duas obras influenciaram seu trabalho, principalmente “Zero”? E você tem algum livro que leu inúmeras vezes também?

A estatística quanto a Oito e Meio está furada, já vi mais de cem vezes, e ainda ontem revi a cena em que Marcelo Mastroianni sonha com seu harém cheio de mulheres ao seu dispor. Ao assistir ao filme pela primeira vez, em 1963, quando fui morar na Itália, não entendi nada, nem sabia italiano. Vi várias vezes até me acostumar com a estrutura do filme, seus vários planos, realidade, memória, idealização, sonho, etc. Foi quando senti, fortíssima, a liberdade de criar. Até então não havia nenhum outro filme igual, Fellini criou uma estrutura anticonvencional, foi contra todas as normas. Ou seja, aprendi ali que a gente cria as normas a cada momento, a gente inventa a estrutura necessária. Cada filme, cada livro é um momento diferente do outro. Para Zero eu precisava de algo que mostrasse o Brasil estilhaçado, desintegrado, fragmentado, sem lógica, absurdo. De repente lembrei-me das cenas aparentemente descosturadas de Oito e Meio e a minha linha narrativa surgiu. Quando Fellini morreu o cinema morreu um pouco. Porém, o cinema sempre renasce. Como todas as artes. Quanto a Pequenos Burgueses vi e revi porque gostava muito da peça, uma obra-prima do Zé Celso, mas vi tanto porque estava apaixonado pela Ítala Nandi, ia todas as noites contemplá-la, deslumbrante, sensual, inteligente, uma santa erótica.

 

“Zero” foi lançado na década de 1970, no auge do regime militar, e foi condenado por ele, por conter passagens que discutem regimes ditatoriais. A situação social em volta força o escritor a se manifestar? Foi essa necessidade que o levou a esse romance?

Na época da ditadura, eu via amigos sendo presos, morrendo, desaparecendo, sendo torturados. Via o país convulsionado com a luta armada e a repressão. Trabalhei em um jornal, o Última Hora, que foi visado, ameaçado, arruinado. Vivíamos em sobressalto com os atos terroristas, com os assaltos a banco (desapropriações, como se dizia), com a possibilidade de ao abrir a porta de sua casa dar com a polícia. O que eu podia fazer? Não era do meu temperamento ir para a luta armada. E decidi escrever o livro que retratasse tudo o que vivíamos. Guardei tudo o que na Última Hora a censura proibia. Enchi gavetas com entrevistas, reportagens, ensaios, fotos, caricaturas, cartuns. Era um Brasil que o leitor não tinha podido conhecer. Decidi transformar aquele material em literatura. Essa história já foi contada vinte vezes, apenas resumo. Seria um livro documento-ficção. Com poucas exceções, com os fluxos de consciência de alguns personagens, nada no Zero foi inventado. Se alguém, hoje, quer saber como foram aqueles anos, pode ler Zero. Um livro moderno ainda hoje, será sempre. Nunca fez escola, permaneceu solitário em sua forma, isso é curioso! Livros solitários! Até mesmo os relatos de tortura são verdadeiros. Eram cartas que nos chegavam das prisões. Havia na Editora Abril, na época, um departamento, o Dedoc, em que trabalhavam várias pessoas com conexões no exterior, com canais próprios, clandestinos. Os relatos chegavam e eram enviados para a imprensa estrangeira. Tive vários em mãos, copiei alguns no meu livro. Havia, apesar de tudo, por todos os lados, uma reação, uma resistência. Esta é a primeira vez que conto isso, posso contar, passados quase 40 anos. Puxa, 40 anos! Zero saiu na Itália, saiu no Brasil, aqui foi proibido, hoje continua a ser vendido, está na 30ª edição. De uma coisa tenho certeza, ele não vende hoje por ter sido proibido, vende pelas suas qualidades, continua presente. Dos 500 livros proibidos na época, quantos estão vivos nas livrarias? Zero continua adotado, continua a ser lido pelas novas gerações. Zero foi na época uma espécie de bíblia de uma geração, hoje encontro com pessoas de 40 ou 50 anos que ainda falam do impacto de Zero. Outro dia, conversando com Chico Graziano, secretário do Meio Ambiente, ele me revelou o quanto Zero fez a sua cabeça. Proibido, eu viajava pelo Brasil e descobria cópias xérox amassadas de tanto serem lidas e repassadas, encontrei em Natal uma cópia datilografada do livro, imagine! Dez jovens fizeram a tarefa. Ou seja, uma vez publicado, um livro vive para sempre. Pode ser esquecido, mas volta à tona. Acho que Zero é a prova de que se pode fazer um livro político e ele ser boa literatura, não ser datado. A história dele pode encher um livro.

 

João Antônio e Antônio Torres foram seus companheiros de estrada na década de 1970 pelas escolas do país, após o lançamento de “Zero”. Conte um pouco dessa experiência com esses dois escritores nessas viagens e da revista Escrita, que lançou tanta gente naquela década.

De certa forma, Torres, João Antônio e eu inauguramos os périplos da literatura, nos transformamos em escritores viajantes permanentes. Claro, antes um e outro tinha ido a lugares fazer palestras. No entanto, no nosso caso, estabeleceu-se uma rede, um projeto contínuo, permanente. Ir a faculdades, a ginásios, a diretórios acadêmicos e falar sobre literatura, mas principalmente falar sobre a política e o país sufocado. Em muitos lugares, a polícia estava na plateia anotando. Há alguns anos, o secretário de Cultura do Estado abriu os arquivos do DOPS e presenteou os artistas com suas fichas naquela repartição. A minha era repleta de palestras, principalmente quando voltei de Cuba. Os relatórios eram indigentes, primários. Hoje, é uma coisa mais do que comum um escritor ir a Natal, João Pessoa, Passo Fundo, Cuiabá, Araraquara, Ribeirão Preto, Curitiba. Naquela época, não. Escritor escrevia em casa, solitário, fechado. A literatura era uma coisa muito “importante”, sagrada, uma religião. Torres, João Antônio e eu trabalhamos por esse desmistificação, por trazer a literatura ao pé do chão, à realidade, à normalidade. Em cada cidade, tenho certeza, conquistávamos um, dois ou cinco leitores, que se tornaram fiéis. Formamos um público nosso. Divulgamos nossos colegas, trabalhamos pela literatura brasileira. Tivemos de aprender a falar, debater, discutir. João Antonio dizia que era um trabalho de formiga, ganhar um a um. Olhávamos os relatórios das editoras, queríamos saber se as vendas modificavam em cada cidade por onde passávamos. Modificavam. Poucos, às vezes, mas modificavam. Era penoso, viagens de ônibus, de carro, de avião, esperas em rodoviárias, noites de chuva e frio, auditórios quase vazios ou superlotados. Lindas mulheres muitas vezes, livros parecem afrodisíacos. Uma vez, o diretor de uma escola em Indaiatuba vetou a minha presença, eu era autor proibido. Os estudantes nos carregaram para uma estação ferroviária desativada, sentaram-se no chão, conversamos horas. Quando voltei de Cuba, em 1978, fui a Universidade Federal do Recife. Auditório superlotado, gente pelo ladrão. Comecei às 13 horas, falei um pouco e vieram perguntas, perguntas, perguntas, terminamos às 19 horas. Vai ver foi influência do Fidel Castro e de seus longos discursos… Na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru, católica, dirigida por freiras, quando chegamos, um professor amedrontado levantou a questão: ali estava um autor vetado pelo governo, a sessão não deveria ser feita, para não pegar mal para a instituição, não sofrerem represálias. As freiras bateram pé: eles vão falar, vão falar o que quiserem, não somos censura, somos pela liberdade. Naqueles anos falamos em auditórios, em teatros, em igrejas, em ginásios, em porões, em estações ferroviárias, em centros culturais, na praça de alimentação de shopping-centers (como em Piracicaba), em armazéns vazios, em praças. Uma vez, em São José do Rio Preto, no Colégio Anglo, havia tanto interesse por parte dos estudantes que a palestra foi transferida de uma classe para o auditório, ainda assim não coube, então acabou sendo na quadra de esportes. Outra vez aqui em São Paulo — desta vez eu estava sozinho —, no bairro de Santana, a plateia não coube na biblioteca do bairro. Fomos para a rua. Levamos uma mesa, o microfone, os alunos sentaram-se nas sarjetas, à sombra das árvores, os ônibus passavam e paravam, as pessoas punham a cabeças para fora das janelas. Até a TV Bandeirantes, alertada, foi cobrir, jamais se tinha visto coisa igual. As famílias da vizinhança ficaram nos portões, levavam cafezinho para mim, bolos, bolinho de chuva frito na hora. Levávamos por toda a parte uma caixa com livros, vendíamos e autografávamos, havia cidade onde não existia livraria. E como há cidades sem livrarias!!! Olhando para trás, tanto Torres quanto eu (João Antônio se foi, morreu sozinho, abandonado, uma tragédia) temos certeza que projeto como o Encontro Marcado, que a IBM patrocinou nos anos 1980 (criado por Araken Távora, que morreu prematuramente) e levou escritores por todo o Brasil, de maneira profissional, com viagens e cachês pagos, e o atual e maravilhoso Tim Grandes Escritores no Interior do Brasil, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santos e Bahia, admiravelmente conduzido por Marcelo Andrade, tiveram seu embrião naquelas nossas viagenzinhas amadoras, loucas, quando faltávamos aos nossos trabalhos por dias e dias. Quanto à revista Escrita, ela faz falta hoje. Produto de um grupo que lutava contra a falta de dinheiro, de patrocínio, falta de tudo, publicou novos autores, velhos autores, publicou contos e poesias, enfim deu espaço a chamada geração 70. Ela precisa ser consultada por qualquer ensaísta que decida escrever a história da literatura. Sem esquecer a revista Ficção. Ah, como era bom ter um conto publicado em Ficção. Uma vez, numa festa promovida pela Escrita, presentes Wladyr Nader, um grande batalhador, Trevisan, Joyce Cavalcanti, Marcia Denser, Ronivalter Jatobá, Ivan Ângelo, Raduan Nassar virou-se para todos nós e disse: “Daqui a 20 anos vocês vão ver. De toda essa geração só sobrará um autor, eu”.

Relendo esta entrevista hoje, dia 4 de julho de 2016, anoto uma declaração de um autor na Flip que terminou ontem, condenando os escritores histriônicos, ou seja, aqueles que sobem aos palcos para falar. Há o autor que só escreve e não vai ao palco por temperamento, timidez, etc. Há o escritor que escreve e descobriu a fala. E há o escritor que apenas sobe ao palco para dar um show. Cada um é cada um. Que aquele escritor da Flip aponte os nomes dos histriônicos sem obra. Sem obras, concordo, não adianta subir ao palco.

 

Parte 3

Hoje faltam justamente grandes causas políticas e o individualismo precede o coletivo. Essa mudança te levou a falar do personagem anônimo nos seus livros, não apenas em o “Anônimo Célebre”, mas também em crônicas como a do “Anônimo que registrei” ou em livros como “A altura e a largura do nada”?

O Anônimo Célebre é uma coisa e Altura e a Largura do Nada é outra. O primeiro é a minha perplexidade (essa que sempre me leva a escrever, essa que me levou a escrever Zero) diante dos absurdos da realidade. Não se pode ficar a vida inteira falando de causas políticas. O assunto do escritor é o homem, a sua condição, a sua loucura e irracionalidade. Trabalhando na revista Vogue eu convivia com esse mundo da superficialidade, da vaidade, da fama pela fama, da celebridade sem causa. Ser célebre, como se isso trouxesse segurança, estabilidade, amor, dinheiro. O mundo do vazio, do nada, do vácuo, olhado ironicamente, sarcasticamente. Quanto a Altura e a Largura do Nada é o meu Amarcord (lembram-se do filme em que Fellini celebra Rimini, sua cidade natal?). Celebrei Araraquara, exorcizei meus fantasmas, peguei o que se dizia na cidade, seus mitos e lendas, criei alguns, inventei outros, a realidade é também ficção e fantasia, delírio.

 

“Não verás país nenhum”, de 1980, parece premonitório por conta das discussões sobre a degradação de grandes cidades. São Paulo continua assim para você? Ela ainda te intriga como personagem de seus livros?

São Paulo sempre será meu (ou minha?) personagem minha. Meu pai adorava esta cidade, ele trouxe todos os filhos para conhecê-la, ela a adorava, ele trouxe os irmãos dele quantas vezes foi possível. Essa paixão passou para mim, tanto que meu sonho era vir para cá e não para Paris. Paris seria depois. Quando cheguei em 1957, foi um deslumbramento (esta em Bebel Que a Cidade Comeu). E à medida que conheci a cidade circulando intensamente como repórter me apaixonei por ela. Paixão e ódio. Insulto e carinho. Meus personagens vagam em busca de realização, de se realizarem, amarem, etc, etc. Apanhe minhas crônicas. Elas falam da cidade, dos pequenos personagens, da gente simples e anônima. Só que estes anônimos são outros, cheios de alma e sonhos.

 

Nesse livro há um relato sobre o processo de trabalho que você utiliza para compor suas estórias e me parece o relato de um escritor ansioso para ver logo a obra pronta. Como é seu processo de trabalho? Você relê muito? Deixa seus amigos cortarem muito texto?

Nunca pensei que Não Verás acabasse acontecendo. 25 anos atrás falei do aquecimento global e agora 2500 cientistas lançaram um manifesto alertando o mundo sobre o assunto. A literatura sai sempre na frente da vida. Não sou ecologista, não sou militante, apenas observo o mundo e a vida e a transponho literariamente. Para montar Não Verás li mais de cem livros sobre clima, hidrografia, meteorologia, devastação, poluição, buracos de ozônio, espécies animais em extinção, etc. Fiz um arquivo de mais de 4 mil recortes para ter um lastro que desse sustentabilidade ao livro. No meu processo anoto muito, sempre a mão, escrevo trechos a mão, pesquiso, vou a recortes, etc. Uso muitas imagens. Para o Não Verás fiz algo excepcional, um “diário de trabalho”, anotando em cadernos as dificuldades, cortes, caminhos e descaminhos, palavras a serem utilizadas, dúvidas, ideias, soluções, leituras, enfim, pelo diário, cuja versão integral tem 200 páginas, você acompanha a escrita inteira do livro, os caminhos de um autor. Não sei se um dia publico ou não isto, não sei se tem interesse. Além disso, tenho outro volume com as quase 800 anotações feitas ao longo dos anos para o livro em blocos, guardanapos, papel de pão, saquinhos, cadernos, etc. Meus amigos leem, mas não podem cortar nada. Podem sugerir e decido o que faço. Releio muito, deixo dormir na gaveta, volto, paro. O final do Não Verás foi escrito 18 vezes até eu ter certeza do tom que desejava.

 

Você morou em Berlim e parece que a cidade te fascina. Por quê? Ela te influenciou depois em seu trabalho, além da narrativa sobre sua estadia lá?

Sou apaixonado por Berlim. Ali escrevi dois livros: O Verde Violentou o Muro e O Beijo Não Vem da Boca. O Verde é o único livro da literatura brasileira que revela a Berlim com o muro em todos os seus aspectos: o cotidiano, o que significava a presença do muro, a guerra fria, a cidade louca e insana, as neuroses, os divertimentos, etc. Em novas edições, O Verde fala da queda do muro e do que ela significou. Se você prestar atenção vai ver ali segmentos em que já revelo temas que hoje os brasileiros conhecem melhor por meio de dois filmes essenciais: Adeus, Lênin e A Vida dos Outros, belíssimos filmes sobre como a Alemanha viveu sob dois regimes que corroeu as pessoas. Quanto à influência ou não, não sei, só o ensaísta do futuro poderá olhar e dizer: Loyola mudou aqui e ali. Cabe a mim escrever, não ficar me autoanalisando. O que me ajudou foi entender o Brasil à distância.

 

Em 1996 você foi operado de aneurisma e conta isso bravamente em “Veia Bailarina”. Mas até mais impressionante que o aneurisma em si é saber que foi a quarta vez que você esteve à beira da morte. A escrita de um autor muda muito após situações-limite como essas? Tudo vira epifânico?     

Não sei se a escrita muda, mas a vida sim. Este processo de simplificação, de menos ansiedade, menos ambições, melhor entendimento do que é o viver, quando se chegou perto da morte, se manifesta. Hoje sei que viver é diferente do que era antes. A cada instante sinto a intensidade de vida de uma forma que somente quem chegou no limite e não partiu consegue perceber. Mas é um processo longo e está mais bem explicado em Veia Bailarina, hoje curiosamente um livro de “autoajuda”, porque é recomendado por todo médico para quem vai fazer uma cirurgia de risco, delicada e perigosa.

 

Você parece gostar muito de Clarice Lispector. Você a considera nossa maior escritora? Por quê?

Gosto de Clarice como bela escritora, mas não sou daquele círculo de adoradores que a santificam. É ótima, excepcional, mas não a considero nossa maior escritora. Considero a Lygia Fagundes Telles nossa maior.

 

Que tema você ainda não tocou e gostaria de abordar num texto um dia?

Nunca pensei nisso.

 

O que você recomendaria a um estudante leitor dessa revista para ele iniciar na leitura? Os clássicos do século XIX afastam os leitores jovens?  

Começar pelos atuais, pelos mais próximos, pela literatura contemporânea brasileira e ir recuando. Quando se habitua o leitor com os de hoje, se pode remetê-lo ao passado. Começar pelo passado é afastá-lo. É o grande dilema dos nossos currículos. Imagine começar por Joaquim Manuel de Macedo. Começar com Érico Veríssimo (O Tempo e o Vento é uma saga impressionante) e também seu filho Luis Fernando, com Rubem Fonseca, Ferreira Gullar, Antonio Torres, João Antonio (fascinante, apanha logo um jovem), uma Lygia, Ivan Ângelo, Marcos Rey, Raduan Nassar, Luiz Rufatto, Marçal Aquino, Marina Colasanti, Sidney Rocha, Daniel Galera, Ronaldo Bressane, Joyce Cavalcanti, Márcia Denser, Dalton Trevisan, Hilda Hilst, Raymundo Carrero, Campos de Carvalho, Adélia Prado, Cora Coralina, Ricardo Guilherme Dicke, Josué Guimarães, Marta Medeiros, Charles Kiefer, Valêncio Xavier, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Roberto Drummond, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Cecília Meireles, Milton Hatoum… Basta, POR ENQUANTO!

 

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