O escritor brasileiro


O escritor brasileiro é animal de terra, água e ar

O escritor brasileiro contemporâneo é completamente diferente daqueles que nos antecederam por gerações. Como tantos outros, centenas, eu diria, tornei-me um viajante. Saltimbanco, percorro (percorremos) o país contando histórias, falando do processo de criação, discutindo a formação de leitores, comentando ou criticando a ausência de políticas culturais ligadas à literatura, avaliando a politica governamental e os partidos. Laptop na mão, cadernetinhas de anotações nos bolsos, o escritor brasileiro hoje atravessa o Brasil conversando, ouvindo, levando informações, conhecendo as diferenças de linguagem, de comida, do matambre gaúcho ao peixe Filho do Pai de Égua do Pará, da muqueca capixaba à Cabeça de Galo paraibana, da Sequência de Camarões santa-catarinense ao Quebratorto mato-grossensse. E tomando sucos (ou caipiroscas) de graviola, pinha, cajá, cupuaçu, acerola, o que seja.

O escritor contemporâneo viaja de avião, ônibus, jardineira, carro, entra em hotel, sai de hotel, fala em teatros, circos, auditórios, igrejas, grêmios universitários, quadras esportivas, estações ferroviárias desativadas e transformadas em centros culturais, praças públicas. Sua plateia é de professores, de coordenadores pedagógicos, estudantes de Letras ou do Ensino Médio (mas há autores que dominam maravilhosamente o Ensino Fundamental).

Curiosamente, ótimas plateias são as dos cursos de exatas, Engenharia, Química, Odontologia, Medicina, administradores de empresas, Informática. Porque relatar a criação acaba fascinando. O autor agora brasileiro é um misto de falador e escritor, nova raça, animal de terra e água e ar. Ainda é cedo para se saber o resultado desta espécie dentro do que se produz. Mas certamente é um bicho que conhece cada vez mais a terra em que pisa.

Hoje, é raro o escritor que não faça um mínimo de 10 palestras pagas por ano. Há cachês maiores e menores. Quando começamos a percorrer o Brasil em 1975, Antônio Torres, João Antonio e eu, nada ganhávamos, muitas vezes pagávamos nossa comida, hospedávamos em casas de professores ou alunos, ou pensões baratas. Hoje, há feiras de livros promovidas por prefeituras, pelo Estado, pela Câmara Brasileira do Livro, por colégios, centros acadêmicos, associações culturais, secretarias. Há as Bienais de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza, Belém, Corumbá, Votuporanga, há a Feira de Porto Alegre, das mais tradicionais, há a Jornada de Passo Fundo, que coloca 6 mil pessoas na plateia, há a FLIP, o Festival da Mantiqueira, a Fliporto, a Flipiri, o Salipi, a Flap, de Macapá, o Fórum das Letras de Ouro Preto, a Flimar (Feira Literária de Marechal Deodoro), o Salão de São Luiz e dezenas mais. Assim como existe O Escritor no Paiol, do jornal Rascunho, de Curitiba. E o T-Bone, açougue de Brasília, que montou um centro cultural e colocou bibliotecas nos pontos de ônibus da cidade. Há o trabalho paralelo de instituições como a Fundação Carlos Chagas, que tem um projeto de distribuir bibliotecas para cidades pequenas do Brasil.

Escritores voam em todas as direções. Por anos, a IBM promoveu um notável evento, o Encontro Marcado, idealizado por Araken Tavora, um pioneiro, que levou autores por toda a parte. Depois a TIM com o Grandes Escritores, do Marcelo Andrade, as peregrinações promovidas pelo Centro Cultural do Banco do Brasil, e as Viagens Literárias da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e do SESC. Os eventos nascem, proliferam.

Conheci o Brasil inteiro nos últimos 40 anos, atravessando em todas as direções, com os mais diferentes companheiros. O que vocês leem em O Mel de Ocara, um livro que prezo muito, amo mesmo, são momentos dessas viagens. Não é trabalho acadêmico. São crônicas, quase contos, reportagens literárias, bem humoradas, em que falo da formação de leitores, das curiosidades de cada lugar, do típico ou regional que se mantém, da maneira de se expressar, do vocabulário. E do comer. Come de tudo o escritor de hoje. Da comida de boteco, do pastel de beira de estrada, tão amado por Fernando Sabino, desde que fosse de ontem e frio, às lagostas e patinhas de caranguejo do Beach Park em Fortaleza.

Conheci (conhecemos) coisas notáveis como a Casa Meio Norte, de Teresina, os Quiosques e Casas de Leitura, de Rio Branco, os Barcos da leitura de Belém e do Amapá, os Agentes de Leitura, de Fortaleza, as Bienais Fora das Bienais em cidades diversas, o Salão no Delta do Parnaíba. Retratos de um Brasil desconhecido, que funciona apoiado em pessoas heroicas, que batalham para mudar as coisas. Falo dos bastidores, das ideias originais, das descobertas e de gente que está procurando encantar os outros com a leitura e os livros. Não me preocupei com a cronologia e sim com as situações, os casos. Foram crônicas publicadas no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo. Aqui está parte do retrato do escritor brasileiro atual.